sexta-feira, 15 de junho de 2012

Quando ganhar é ser vice

Por Cássio Moreira 

No Brasil a vaga de vice sempre foi desvalorizada. Já fomos vice-campão mundial, vice-campeão na Fórmula 1, vice-campeão em bola de gude, etc. Até nos campeonatos de futebol ser vice é perder. 
A eleição de Porto Alegre será uma das mais disputadas. Quem não for para o segundo turno, e acredito que haverá, não será vice-prefeito. De um lado o atual prefeito, grande pessoa e caráter, entretanto com uma aliança cada vez mais a direita com a entrada do DEM e a confirmação do PP. De outro lado, jovem, mas já com grandes vitórias eleitorais, a deputada federal Manuela do PCdoB e seu leal aliado, o PSB, além de outros partidos como o PSD e o PSC. 
Em terceiro lugar nas pesquisas está Villaverde. O PT já esteve muitos anos na prefeitura e revolucionou a forma de governar com Olívio Dutra. Seus principais nomes, Maria do Rosário e Henrique Fontana, por motivos diversos abriram mão de concorrer. A ministra fazendo um belíssimo trabalho como Secretária de Direitos Humanos prepara-se para ser a sucessora de Tarso Genro. O segundo, por questões particulares, priorizou a família. 
Acabou sendo Villaverde. Talvez até ele não acreditasse em ser candidato e sim vice. Homem inteligente que é, veria como uma vitória ser eleito vice. Afinal, havia uma época no Brasil que os vices governavam. Lembro Café Filho, João Goulart, José Sarney e Itamar Franco, só pra citar no âmbito federal. 
O PT ficou numa encruzilhada. Se apoiasse Fortunati desagradaria seus fieis parceiros e aliados: PCdoB e PSB. Se apoiasse Manuela, desagradaria o PDT, um partido que poderá ajudar muito na reeleição em 2014, caso não tenha candidato próprio. Embora, cada vez mais, há chances de termos três candidatos competitivos: Tarso, Ana Amélia e Fortunati. 
Houve a tentativa de garantir a candidatura do PT com Raul Pont, quando setores mais a esquerda do partido tentaram viabilizar a candidatura do ex-prefeito. Contudo, com a sua desistência, Villaverde consolidou-se como candidato. Agora, para muitos do partido, ficaria complicado recuar e ser vice de alguém. 
Entretanto, perde muito espaço deixando de ser vice e apenas apoiando num segundo turno. Em segundo turno não é vice, é agregado. Agregados não têm a mesma importância do que vice. O PT empurra com a barriga um problema que poderia resolver agora. Melhor momento não há, quando Ana Amélia declara apoio a Manuela, contrariando seu partido. 
O PT sendo vice de Manuela deixa a senadora em posição difícil. Se Ana Amélia quiser manter a coerência, deverá continuar apoiando o projeto que já declara ser o melhor, mesmo tendo o PT de vice. Se não apoiar, nessas circunstâncias, perde a credibilidade e sai mais enfraquecida perante o eleitorado e seu partido. 
O PT ser vice de Fortunati é algo inviável nessa altura do jogo político, pois explode a aliança tão arduamente construída com os partidos de centro-direita. 
O PT, então, estaria mais preocupado em garantir a manutenção ou ampliação da sua bancada de vereadores em Porto Alegre, algo mais fácil de construir-se tendo um candidato forte na majoritária. Acredito que esta não seja uma boa explicação para permanecer com candidato próprio. Mas ainda pergunto, o que vale mais: uma vaga de vereador ou uma de vice-prefeito? 

Cássio Moreira é economista, doutor em Economia do Desenvolvimento (UFRGS) e professor do IFRS – Câmpus Porto Alegre. www.cassiomoreira.com.br

2 comentários:

Serginho Neglia disse...

Companheiro Cássio,
Parabéns pelo exercício de analise política! Coerente ou não, preciso ou não, é sempre importante que façamos exercícios desta natureza. Primeiro para nós mesmos, e depois para provocar, nos outros, a reflexão.
Neste sentido gostaria de contribuir acrescentando que Porto Alegre tem uma tradição recente de valorizar seus vices. Como você bem lembrou, Café Filho, João Goulart, José Sarney e Itamar Franco, acrescento Floriano Peixoto, Nilo Peçanha, Venceslau Brás, Delfim Moreira, vices que assumiram os mandatos na Presidência da República, mas, vamos ficar por aqui em nossa Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre.
Se usarmos o próprio PT, veremos que nosso Governador Tarso Genro, ganhou projeção na política quando se elegeu vice de Olívio na Prefeitura de Porto Alegre, sucedendo ele na eleição seguinte, mais tarde o próprio Tarso elegeu seu vice, Raul Pont, que elegeria seu vice, José Fortunati, então no PT, caso Tarso não rompesse a tradição, e se candidatasse novamente, se elegendo e renunciando 2 anos depois, para concorrer ao governo, concedendo a vaga ao seu vice, João Verle, último Prefeito petista.
Veio Fogaça, interrompendo uma sequencia de 16 anos de PT na Prefeitura de Porto Alegre, se reelegeu, e aquilo que não aconteceu lá no passado, finalmente ocorreu, José Fortunati passou de vice a prefeito, por força da renuncia de José Fogaça para concorrer ao Governo do Estado em 2010. Fortunati que fora preterido pelo PT, e por Tarso, após 4 anos como vice, quebrando uma “tradição” Petista, finalmente chegou a Prefeitura.
Pois é, vice aqui em Porto Alegre não parece ser tão ruim assim; Nos últimos 30 anos, apenas Glênio Peres (Vice de Alceu Collares que faleceu durante o mandato em 27.02.1988) e Eliseu Santos (Vice do primeiro mandato de José Fogaça, também falecido) não se transformaram em prefeitos. Por isso, ser vice-prefeito é um excelente caminho para se tornar o principal mandatário da capital de todos os gaúchos. Assim, já que o PT não quer, defendo que o PSB indique o companheiro Airto Ferronato como candidato a vice de nossa jovem e aguerrida candidata, Manuela D’Avila, futura Prefeita de Porto Alegre, para que nós socialistas possamos chegar à prefeitura de Porto Alegre.
Parabéns pelo Artigo!
A luta companheiros!

José da Mota disse...

Ou quando ser vice significa ganhar como em São Paulo onde:
"O Galo Cantou Canto Certo"
São Paulo forma a mais genial e eclética aliança política que sequer o maior dos gênios do marketing político poderia imaginar. O que naturalmente levará à vitoria da disputa eleitoral mais cobiçada do país, a prefeitura de São Paulo.
São tantos acertos políticos em todas as suas áreas, que vai de costuras políticas em pequenos municípios, prefeitura de São Paulo em si, governo federal, aproximação definitiva e concreta do PSB com a aliança governista e, principalmente a demonstração de confiança total do PSB na Presidente Dilma.
De onde naturalmente gerará maior aproximação e virão mais projetos para os estados comandados pelo PSB, e, mais ministérios para o partido.
É de se admirar e repetir para acreditar, em uma estratégia política que seria racionalmente inimaginável, um golpe de sorte, mudar não só a vitória da disputa pela prefeitura de São Paulo, mas todo um quadro político nacional.
Como se fosse um projeto planejado em universidades excepcionais como Federal de Juiz de Fora, UFRJ ou harvard, mas por algum político brasileiro conhecedor profundo de nossas mazelas.
Como se fosse uma tese de doutorado, PHD, com o título, "Passo a passo para mudar a política brasileira de mãos para sempre" ou "Os novos rumos do Brasil" ou mais brilhante ainda
"Brasil acordado em solo esplendido".
Como para o PT no início das negociações para a campanha eleitoral de São Paulo perder o apoio de Kassab foi considerado uma derrota fatal.
A surpresa da chegada da surpreendente Luíza Erudina (PSB) como vice de Haddad foi sensacional, e ainda como a cereja do bolo ganharam o apoio do PP paulista. Confirmando a derrota triplamente fatal, do Serra.
Quanto à PSB, planejamento passo a passo em Harvard por quem conhece o Brasil a fundo, acho bom perguntarem a Ciro Gomes se ele teve algo a ver com toda essa reviravolta na política brasileira.
Paro por aqui, porque sobre este tema há muito o que conjecturar. Em outra oportunidade volto à ele com prazer, e haverá, um tanto bom.
José da Mota.